quinta-feira, 13 de junho de 2013

Angústias ortográficas

Sou professora de Língua Portuguesa há uns... 5 anos, considerando aulas particulares e estágios durante a faculdade, mas nem por isso saio por aí apontando tudo quanto é erro ortográfico, até porque ser chata é algo bastante cansativo.
Entretanto não posso deixar de notar que desenvolvi uma sensibilidade incomum para erros cometidos em publicações midiáticas e marqueteiras: são dois segmentos a quem atribuo uma certa responsabilidade com a língua, pois, por exemplo, teria dúvidas sobre a idoneidade de um vendedor de cães que escrevesse "vende-se caxorrinhos pudos". Francamente, quem estivesse disposto a investir dinheiro na compra de um cão de raça, se não o faz, deveria desconfiar dos conhecimentos técnicos de alguém que vende algo que sequer sabe grafar: que especialização tem essa criatura? O quanto ela entende de cães para vendê-los?
Outro dia caminhava com a minha mãe quando vi um belo banner contendo a seguinte informação: "faço alizamento à laser". Acho que não fiquei chateada com o/a dono/a do espaço, mas acredito que esperavam que a pessoa a quem pagaram pelo serviço tivesse feito a correção. "Alisamento" vem de "alisar" que significa "tornar liso", e por isso grafa-se com "s". Não se trata de uma palavra que a gente só vê quando mostram algum barraco de políticos na câmara dos deputados pela TV ou quando resolvemos ler um bom livro: "liso", "alisa" e "alisamento" se encontram de montão em frascos de shampoos, cremes e outros cosméticos capilares em qualquer supermercado. São palavras, inclusive, familiares à quem vende o serviço divulgado no banner e se eu percebesse o erro, pediria um novo banner sem custo adicional, afinal, alguém que ganha a vida com textos e imagens deveria ter um dicionário como melhor amigo...
Mas o fim da picada foi ver em um desses  noticiários populachos o verbo "chantagear"  (com er) conjugado como "chantagiava". Ali não tem perdão: há um batalhão de pessoas com alto nível técnico, além de jornalistas para revisar textos e colocam um verbo conjugado erroneamente em rede nacional! Além do mais, o público sempre  tende a acreditar que noticiários são uma boa fonte de exemplos de língua-padrão, no que o programa em questão certamente não deu o exemplo...
Que felicidade era não ser tão sensível...

domingo, 9 de junho de 2013

Sobre o dulçor

- Me dá um pedacinho de bombom?
Estava eu, em algum período de 2012, saboreando uma daquelas maravilhosas trufas de chocolate da Cacaushow enquanto caminhava até o trabalho. Fui surpreendida por uma mulher desconhecida,na faixa dos 60 anos, que me fez o pedido acima.
No momento, me passou pela cabeça dizer não e prosseguir o meu caminho, mas o pensamento só durou um segundo: seria muito egoísmo ignorar seus olhos suplicantes como os de uma criança. Além disso, seu pedido cheio tinha um tom de expectativa quase infantil e suas roupas gastas e a trouxa que carregava nas mãos indicavam que aquela mulher há muito não podia comprar um único doce: sua vida era amarga e cheia de privações.
- Pode ficar com o meu- disse à mulher.
Segui o meu caminho e aquela estranha seguiu o dela. Caminhei feliz por ter concedido-lhe um pouco de dulçor.

sábado, 8 de junho de 2013

Sobre fadas e bruxas

Toda menina em algum momento deseja ser fada. Comigo não é diferente.
Na infância a fantasia aparece com o faz-de-conta, em que temos o poder de fazer com que amigos invisíveis: princesas, fadas e príncipes; tomem forma. Na adolescência, queremos ser fadas para encantar as pessoas à volta e descobrir mistérios que só o coração sabe: para isso, nos metamorfoseamos em patricinhas, nerds, poderosas ou em nós mesmas. Todas queremos deixar o nosso nome no mundo (o que invariavelmente me faz lembrar o quanto minhas alunas adoram escrever seus nomes no quadro negro). 
Na vida adulta, ser fada passa a ser inevitável: de que outra maneira uma mulher conseguiria trabalhar, estudar, cuidar da casa, dos filhos e ainda assim encontrar tempo para ser encantadora?
Gostaria que o meu encanto contagiasse meus alunos como sonhei nas minhas brincadeiras de infância. Gostaria de ser fada, mas tem me faltado aquela leveza e disposição em encantar, pois minhas tentativas têm sido em vão.
Encontro-me novamente assustada com o mundo, assustada com o lugar para onde as minhas escolhas me levaram e sobretudo, tem me passado pela cabeça a ideia de desistir do meu velho sonho de ser professora.
Mas não vou. Me culparia eternamente pelos anos desperdiçados com xerox, papel caneta e dedicação intelectual em um dos cursos mais densos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Eu me culparia, mesmo sabendo que os alunos que me lançam pedaços de giz e mancham minha roupa com corretivo não dão a mínima para minha culpa. Estão errados, mas tento entendê-los: são obrigados a estar na escola mesmo quando não querem, e nem ao menos entendem o porquê.
O que eu poderia dizer a eles eu já disse: chamo a atenção, grito (e como grito: se antes eu era uma soprano que ia até as notas mais agudas, hoje minha voz tem quase a extensão de um tenor), converso, falo sobre a vida e suas exigências. Entretanto, talvez a maioria deles ache que o discurso de uma professora de 23 com cara de adolescente de 15 seja hipócrita e vazio, alienado e repetitivo, como se eu não conhecesse nada sobre a vida e estivesse repetindo a fala dos outros. Mas insisto por aqueles que confiam no meu trabalho, sobretudo por mim mesma.
A educação impulsionou a minha vida: o que sou hoje devo a ela. Mesmo que a minha fada interior esteja machucada e triste, vou continuar.
Semana que vem vou deixar minha fada descansar um pouco e vou despertar a minha bruxa. Detesto me impor pelo medo mas a curto prazo não tem jeito: preciso mostrar-lhes que não estou para gracinhas...
Mas assim que a fada melhorar eu a acordarei... E seremos felizes para sempre!